Muitas ferramentas tratam devolução como edição na entrega original. Tira uma linha, ajusta o total, segue. Fica com o dashboard simples e o histórico impossível de reconstruir.
A abordagem de editar a entrega tem um apelo superficial. Por que criar um documento novo se a entrega original já tem os itens? É só zerar a quantidade dos itens devolvidos, ajustar os totais, e fingir que nunca aconteceu. O problema é que aconteceu. O motorista foi até o cliente. O produto foi descarregado. Dias ou semanas depois, parte voltou. Colapsar esses eventos num único registro editado destrói a linha do tempo operacional e impossibilita responder perguntas básicas de negócio sobre taxa de devolução, comportamento do cliente e qualidade do produto.
Nota de devolução é documento próprio
O Quotery modela ReturnNote como par de DeliveryNote. Tem ciclo próprio rascunho → postada, numeração própria (RN-YYYY-NNNN), itens próprios. Postar incrementa on_hand e escreve linha RETURN no ledger. O status da cotação-pai não muda — conforme D8, devolução não volta a cotação.
Esse design tem duas consequências. Primeiro, a entrega original é imutável — uma vez postada, seus números são fixos. Você sempre pode ver exatamente o que foi expedido em qual data. Segundo, a devolução é independentemente auditável. Tem sua própria data de criação, sua própria data de postagem, seus próprios itens e quantidades. A lacuna de tempo entre entrega e devolução é capturada naturalmente, não colapsada.
Por que não reverter a entrega? Porque o cliente não cancelou a venda. Ele recebeu, decidiu que não queria parte, e mandou de volta. Comercial e legalmente, são eventos diferentes. Juntar embaralha a trilha de auditoria e impossibilita responder 'quanto do que enviei para esse cliente voltou no último trimestre?'
A distinção importa para métricas. Taxa de devolução por cliente é indicador antecedente de satisfação e fit. Taxa de devolução por produto sinaliza problema de qualidade ou descrição. Taxa de devolução por vendedor pode indicar over-selling ou falha de comunicação. Se as devoluções são dobradas como edições de entrega, nenhuma dessas métricas é computável — você destruiu os dados que precisa para melhorar o negócio.
